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A nova Liga da Justiça foi a revista mais vendida das Américas em setembro!! Hummm, acho que não…

setembro 15, 2011

Antes de começar este post, quero aproveitar para esclarecer que apesar do blog ser da Kingdom Comics, que é uma das mais duradouras lojas de quadrinhos do Brasil e que de fato o utilizamos para promover produtos, nosso blog também é um espaço para discussão e opinião, duas atividades que são imprescindíveis nestes dias de transição em que a sociedade no geral, e o mercado de quadrinhos específica e especialmente, estão passando. Este post é mais um em que expresso minha opinião – eu, Lima Neto, sócio/editor/escritor/diagramador – que, necessariamente, não está atrelado às razões comerciais da loja. Ou seja, se você não gostou da minha opinião, está livre para discuti-la e debatê-la em nosso espaço para comentários, mas ela não expressa exatamente a opinião da King dom Comics.

Esclarecidos então, podemos começar.

Como muitos de vocês leitores já sabem, a DC comics – casa de personagens como Super-homem, Batman e Mulher Maravilha -  está passando por uma reformulação total. Esse reboot estreou neste mês de setembro com o lançamento da nova revista Justice League que conta com os roteiros de Geoff Johns e a arte do ultra popular Jim Lee e foi alardeado pela editora como sendo a HQ que mais vendeu no continente Americano!

Bom existem controvérsias, e muitas.

O site britânico especializado em quadrinhos, Bleeding Cool, é um dos melhores sites sobre histórias em quadrinhos por ter uma opinião sólida (assim como seu site parceiro – Comics Alliance) e uma amplitude de visão que se esforça para ser global e multicultural. Por isso mesmo é um dos sites que uso de fonte paras as notícias em nosso blog. Nesta terça-feira, dia 13 de setembro, o jornalista do Bleeding Cool, Rich Johnston, publicou uma matéria interessantíssima com o seguinte título: “This is What a Half-Million American Comic Book Looks Like“. A matéria critica a informação veiculada pela DC Comics de que o título “Justice League” foi a revista em quadrinhos mais vendida das Américas, uma informação que realmente gera muitas dúvidas quanto a sua veracidade. Será que a DC fez sua pesquisa direito? Existe a clara possibilidade de que ela tenha confundido América com América do Norte, ou melhor, com os Estados Unidos da América?

"Por dentro dos números:Liga da Justiça #1 é oficialmente o quadrinho mais vendido de 2011"

Em todo caso, o jornalista fez sua pesquisa.

O que ele descobriu é que, dentro do continente americano, o gibi que mais vendeu foi este aqui ó:

De acordo com Johnston, a edição #34 da Turma da Mônica Jovem (ou Teen´s Monica Gang como ele diz) vendeu 500.000 edições! Sendo que isto só ocorreu por que esta edição mostra o beijo da Mônica com o Cebola (quase escrevi Cebolinha, mas prefiro separar os personagens) o que fez o título vender 100 mil edições a mais do que as comuns 400 MIL edições mensais que vende.

Eu cito esta matéria não por ufanismo, já que a falta de uma fonte de onde o jornalista extraiu esta informação acaba tirando um pouco da sua credibilidade, mas para demonstrar o tamanho do buraco em que as principais editoras de quadrinhos nos EUA estão enfiados e como elas estão absolutamente despreparadas para lidar com ele.

Você não está vendo? Deixa eu te ajudar.

O mercado de quadrinhos americano, como vocês leitores devem saber, tem duas grandes editoras no comando: Marvel e DC. Estas editoras já viram dias em que seus títulos vendiam centenas de milhares de edições por mês, mas estes dias já se foram há alguns anos e hoje o fato de um título vender 200.000 exemplares, mesmo que essa informação não passe de marketing, é motivo para festa. Mas como elas conseguem se manter hoje em dia em face de imensa e contínua queda de vendas? Essa é fácil! Assim como os quadrinhos, outra indústria de entretenimento que nunca sonhou em amargar tamanha impopularidade é a indústria cinematográfica de Hollywood. Para sobreviver, o cinemão norte-americano teve que absorver qualquer coisa que estivesse a sua volta passível de  lucro nas bilheterias, e a bola da vez até o momento são os filmes blockbusters adaptando os super-heróis mais conhecidos do universo pop, que não por acaso, são editados pelas editoras DC e Marvel. A DC  já tinha costas quentes com o dinheiro da mega-corporação midiática Warner a sustentando, mas o jogo só esquentou quando a Disney comprou a Marvel comics já de olho no lucro que os Estúdios Marvel já estavam  gerando.

O problema com estes apadrinhamentos são dois: O primeiro é que a produção da editora passa a obedecer a parâmetros estabelecidos pelos estúdios, já que os mesmos têm que garantir que o produto que estão vendendo nos cinemas seja o mesmo que é produzido nos quadrinhos e, também, criar novos produtos passivos de exploração para o cinema que estarão sob controle absoluto dessas corporações. Nesse ponto nós podemos facilmente encaixar este reboot da DC Comics e sua legião de Super-heróis de gola rolê e que se mostra, apesar dos esforços em promover uma inclusão social que eu particularmente considero estratégica, aparentemente sem alma. Lógico, sou o primeior a admitir que estou falando de algo que não li. Mas algumas imagens que vem sendo divulgadas na net têm me feito torcer o nariz para além da minha capacidade física para tanto. Como, por exemplo, a nova Amanda Waller do novo universo DC:

Como vocês podem ver, aparentemente os gordos não são mais bem vindos no universo da editora. Embora isso nada tenha a ver com o dinheiro dos leitores mais gordinhos. A personagem Amanda Waller sempre foi uma das mais impressionantes do universo DC. Uma personagem mulher, negra, com excesso de peso e que simplesmente comandava e manipulava dezenas de super-deuses. Precisa mesmo dizer mais? No entanto, para o padrão de beleza hollywoodiano, para fazer tudo isso ela provavelmente só pode ser bulímica e sensual.

O segundo ponto em que as associações entre as editoras de quadrinhos e os estúdios de cinema podem ser problemáticos é que a única estrutura em que estas editoras se seguram, frente ao abismo aberto pelo atraso nas suas maneiras de pensar e produzir quadrinhos para um mercado, é o dinheiro investido nelas pelos estúdios. Mas considerando os humores do mercado, este dinheiro só continuará fluindo enquanto estes personagens estiverem rendendo nos cinemas, ao passo que quando estas boas performances cessarem, os estúdios milionários não pensarão duas vezes antes de descartar estas editoras – agora dependentes de dinheiro externo e esgotadas criativamente. É esse o buraco que havia comentado antes.

Mas porque estou falando tudo isso? Por que estamos passando por um momento de mudança de mercado em que as editoras que tinham o domínio do mercado se vêem obrigadas a se adaptarem  radicalmente caso queiram sobreviver. A história em quadrinhos, como mídia, não está ameaçada. O que quer dizer que a queda destas grandes editoras simboliza algo ainda mais importante do que tudo que eu disse antes, significa que um espaço enorme do mercado estará livre para quem estiver preparado para assumir o vácuo que elas poderão gerar. E considerando que grande parte do mercado brasileiro de quadrinhos vem das editoras Marvel e DC, um espaço enorme também se abrirá no Brasil. Espaço que pode ser preenchido por material de qualidade onde artistas e escritores poderão encontrar um meio de subsistência em sua terra natal, ao invés de importar seus talentos para ajudar empresas internacionais a superar sua crise.

Finalizando, preciso afirmar nestas últimas linhas meu apreço enorme pelo gênero Super-herói – nascido nas histórias em quadrinhos e possuidor de características especiais que não existem em nenhum outro gênero – e dentro deste gênero, os super-heróis da Editora DC têm um lugar muito especial em meu coração, do Super-homem ao Red Bee. No entanto, enquanto as grandes corporações exploram sem dó personagens tão caros para todos, extraindo a criatividade que fazem estes super seres funcionarem, se abre um espaço para o novo, para novos criadores que podem e devem aproveitar o momento de renovação das HQs para criar histórias e personagens que você queira ver impresso. Entre a Era de Ouro dos quadrinhos de SH e a Era de Prata, estes personagens quase caíram no esquecimento, para retornar então renovados e com o frescor dos novos tempos. Talvez agora seja um novo momento para este gênero se renovar mais uma vez.


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